sexta-feira, 15 de agosto de 2025

VELHA CASA





          Ante destaque ao horizonte, uma paisagem esquecida pelo tempo, repousa uma casa antiga. De madeira gasta e telhado torto, envolta por um silêncio seco que ecoa a ausência de tudo o que já foi. Seus alicerces rangem com o vento quente e seco em zona rural semideserta, onde o verdejante vale se esvai a cada dia, como se o mundo tivesse retirado dali sua própria alma. As janelas, agora, de pouca madeira apodrecida, miram o horizonte rachado pela estiagem, como olhos cansados pelo tempo.

          Décadas atrás, aquela mesma casa pulsava com vida. Pela manhã, o cheiro do café fresco se misturava ao som das águas do riacho que vinha do pé das serras. As crianças corriam entre as árvores, descalças, os cabelos ao vento, rindo sob as sombras generosas dos umbuzeiross e cajueiros. Era comum ver muitos animais e aves silvestres cruzando o terreno e cortando os céus livremente, como parte da família. A mata densa era refúgio e sustento, o rio era espelho e fonte de abundância, e a terra, fértil, respondia com fartura à generosidade do céu.

          Mas o tempo e o homem, implacável e cego, veio como ladrões silenciosos. Primeiro, a água minguou; o riacho cada vez mais esturricado até virar apenas uma cicatriz no solo. Depois, vieram o fogo e o machado, engolindo o que restou das matas e expulsando os animais. Sem árvores, sem sombra, o sol queimava o que restava, fontes de água secaram e a casa, outrora alegria, foi sendo engolida por um vazio que crescia por dentro e por fora. As vozes cessaram, os passos diminuíram até parar por completo. Hoje, ela permanece ali, testemunha muda de um passado que ninguém mais conta, abrigando apenas o vento, o pó e as lembranças que insistem em permanecer.

          Dizem que à noite, quando a lua cheia se ergue sobre as montanhas, é possível ouvir um murmúrio suave, como se a casa chorasse. Não de dor, mas de saudade das águas, do verde, dos animais, das vozes... Esse som "apavorante" causado pelo vento por entre a velha casa, relembra de quando a vida ali era mais que presença: era festa. Agora, tudo que resta são sombras. E a casa, em pé apesar de tudo, continua esperando... como se ainda fosse possível voltar.


_____________ Claudianor Dantas




Nenhum comentário:

Postar um comentário