Ante destaque ao horizonte, uma paisagem esquecida pelo
tempo, repousa uma casa antiga. De madeira gasta e telhado torto, envolta por
um silêncio seco que ecoa a ausência de tudo o que já foi. Seus alicerces
rangem com o vento quente e seco em zona rural semideserta, onde o verdejante
vale se esvai a cada dia, como se o mundo tivesse retirado dali sua própria
alma. As janelas, agora, de pouca madeira apodrecida, miram o horizonte rachado
pela estiagem, como olhos cansados pelo tempo.
Décadas
atrás, aquela mesma casa pulsava com vida. Pela manhã, o cheiro do café fresco
se misturava ao som das águas do riacho que vinha do pé das serras. As crianças
corriam entre as árvores, descalças, os cabelos ao vento, rindo sob as sombras
generosas dos umbuzeiross e cajueiros. Era comum ver muitos animais e aves
silvestres cruzando o terreno e cortando os céus livremente, como parte da
família. A mata densa era refúgio e sustento, o rio era espelho e fonte de
abundância, e a terra, fértil, respondia com fartura à generosidade do céu.
Mas o tempo
e o homem, implacável e cego, veio como ladrões silenciosos. Primeiro, a água
minguou; o riacho cada vez mais esturricado até virar apenas uma cicatriz no
solo. Depois, vieram o fogo e o machado, engolindo o que restou das matas e
expulsando os animais. Sem árvores, sem sombra, o sol queimava o que restava,
fontes de água secaram e a casa, outrora alegria, foi sendo engolida por um
vazio que crescia por dentro e por fora. As vozes cessaram, os passos
diminuíram até parar por completo. Hoje, ela permanece ali, testemunha muda de
um passado que ninguém mais conta, abrigando apenas o vento, o pó e as
lembranças que insistem em permanecer.
Dizem que à
noite, quando a lua cheia se ergue sobre as montanhas, é possível ouvir um
murmúrio suave, como se a casa chorasse. Não de dor, mas de saudade das águas,
do verde, dos animais, das vozes... Esse som "apavorante" causado
pelo vento por entre a velha casa, relembra de quando a vida ali era mais que
presença: era festa. Agora, tudo que resta são sombras. E a casa, em pé apesar
de tudo, continua esperando... como se ainda fosse possível voltar.
_____________ Claudianor Dantas

